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Em casa, os eternos companheiros

Solidão ou amor na base da relação dos bichos com seus donos



Bicho é quase gente. Mas quando os papéis são trocados os resultados poder ser surpreendentes. Prova O veterinário especializado em psiquiatria animal José da Silva Pereira chega a morder os bichanos que vão ao seu consultório quando é o caso. "O bicho tem que se colocar no lugar dele. Se ele me morde, eu também mordo", brinca o autor de O ABC de uma ciência - Psiquiatria animal, referindo-se a tendência que muitas pessoas têm de transpor o seu próprio universo para o mundo dos animais. "Um cão não pode ser um filho; ele é dotado de uma individualidade que deve ser incentivada pelo seu criador. Quando festas de aniversário e roupinhas de animais são índices de uma relação equivocada, os bichos podem apresentar sintomas preocupantes, de ciúme excessivo dos seus donos à perda de identidade e até indiferença pelos seus semelhantes", diz o veterinário homeopata Sérgio Rogério M. da Silva.



Mas um bom chamego é sempre bem vindo. E disso, os donos de bichos bem sabem. A emergente Vera Loyola diz que tem certeza que a sua cadela Pepezinha adorou a celebração do seu último aniversário: "Quando eu coloco o laço de fita na sua cabeça ela fica toda feliz". Agora com 12 anos, a thin mestiça é a maior prova de que, se não é gente, chega bem perto. "Quando vou viajar, ela me vê arrumando as malas e sai até de perto de tristeza", conta Vera que, ao lado de seus três canários belgas e dois gatinhos, filosofa: "Os bichos nos dão amor sem interesse".



Em um mundo cada vez mais competitivo e individualista, cresce a procura por bichinhos de estimação - considerados eternos companheiros. Mas par o ator Cláudio Cavalcanti isso não quer dizer que os animais também não sofram de solidão e abandono. "As pessoas estão vivendo um momento tão terrível de desamor, que isso se reflete no tratamento dado aos bichos, muitas vezes abandonados nas ruas", diz. Pensando assim, Cláudio se lançou candidato a vereador com esta plataforma: "Quero acabar com a carrocinha e fazer mais abrigos para os animais abandonados. Meu negócio não é deixar o poodle boniitnho", diz.



O apartamento de Cláudio e sua mulher, Maria Lúcia, em Copacabana, confirma sua indignação - é um verdadeiro refúgio para os 13 gatos, entre eles Ana Freud e Julião, e o fox terrier que lá vivem. "Desde criança era assim. Via os bichos na rua e levava para casa, contra tudo e contra todos", conta o ator, que já criou coelho, gavião e até morcego. "Eles têm capacidade de amor, ciúme, inveja, dor, igual a qualquer um de nós".



Capacidade igual ou superior. Falcão, o cocker do ator Carlos Eduardo Dollabela - que também tem dois huskys e um minibasset - é excessivamente carente. "Quando chego em casa os três vão para a porta e ficam lá, festejando. O Falcão se sente diminuído e pega qualquer coisa que esteja perto, uma folha de papel que seja, para me presentear e chamar a atenção", conta. "Eles são como meus quatro filhos, cada um tem uma personalidade", explica.



Para Cláudio Cavalcanti, a expressividade é mais fácil de ser notada nos cachorros, que "abanam o rabo para mostrar que são felizes". Já os felinos, envoltos em uma áurea de mistério, conseguem tudo o que querem apenas com o olhar, aparentemente impassível, e com o caminhar lento e ritmado. "Os gatos passam aquele ar de dignidade. Há um deles que, quando estou chegando, ouve o barulho do elevador e vem me cumprimentar" diz. Diante disso, será mesmo o cachorro o melhor amigo do homem "Criou-se esse mito. Existe muita superstição em torno dos gatos. Por exemplo: gato preto dá azar. E outras histórias de feitiçaria. Acho que os felinos sabem que são párias e que a brincadeira de muitos é furar seu olho", lamenta Cláudio.



Uma coisa é certa. Sejam ricos ou pobrezinhos, os animais absorvem, dos seres que o cercam, um pouca da sua personalidade. "Meu fox terrier é super temperamental. Ele acha que é gato, porque quando chegou aqui passou a conviver com sete. Faz xixi no pipi cat e só come ração de gatos", revela Cláudio. Absorvem também grande parte das neuroses humanas. "Nas sessões de análise deles, preciso conhecer o bicho e o dono. Às vezes, até separo um do outro".



"Mostro os animais com tique nervoso a outros de sua espécie para que sejam reinseridos no seu mundo", diz o psiquiatra José Pereira, que faz consultas para resolver desde agressividade até dermatoses alérgicas de fundo neurótico.



Mas em matéria de amor é mesmo difícil não misturar os universos. "A relação com animais de estimação pode envolver certa carência. Mas não dá para generalizar", diz o veterinário e ortomolecular Allecxander Ferrari, que todo fim de semana é convidado para, no mínimo, duas festas de cães ou gatos.

Julia Duque Estrada: Jornal do Brasil 21/11/1999

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